Qual sua teologia sobre missões?
A pergunta requer um tratado como resposta. Minha
Teologia de Missão é focada no Deus da missão, o Deus que comissiona. Em outras palavras, a missão não é nossa é
de Deus. Ele é o idealizador e executor da missão. Como na criação,
somos Seus parceiros, Seus administradores, na linguagem bíblica, mordomos dos interesses
e recursos de Deus. Por isso não podemos limitar a missão à simples definição proselitista "levar
alguém a Jesus". Isso é parte da missão mas não encerra a missão. Missão no contexto bíblico é algo bem maior. É o
fazer discípulos de Cristo que por sua vez também farão outros discípulos. Implica em expandir o Reino de Deus para todas as esferas da vida visando o
resgate de toda a natureza caída, que geme aguardando com expectativa o dia da
redenção, conforme nos ensina o apóstolo Paulo (Rm. 8:22-23).
Como você descreve a relação entre:
a)
Missão e o choque Cultural - O choque cultural é resultado da nossa
condição caída. A queda nos trouxe limitatções em todas áreas da vida. Assim, perdemos também a capacidade de nos comunicar de maneira plena. Ficamos todos condicionados pelos códigos e valores culturais que nos
diferenciam como povos e sociedades. A comunicação intercultural ou
transcultural, portanto, se torna prejudicada e, conseqüentemente, nossa habilidade de
vivenciar o Reino entre outros povos. Logo, o choque cultural é uma
realidade que necessita ser enfrentada, se queremos de fato ser cooperadores
de Deus no Seu plano redentivo.
b)
Missão e Finanças - Nossa compreensão é de que tudo pertence a Deus. Assim como os dons, os bens que recebemos dEle não são nossos. São Seus, e os recebemos para administrar em prol do Seu Reino. Somos apenas mordomos. Logo, nossas finanças devem estar à disposição da proclamação do Seu Reino. Devo dizer que finanças é apenas um componente
do qual Deus se serve para a execução da Sua missão.
c)
Missão e Parcerias - Lausanne III Cape Town 2010 pontuou de forma precisa a
necessidade da igreja (corpo de Cristo) dar as mãos para que o Reino continue
avançando. Para mim, parceria não deve ser vista como mera estratégia na
missão, mas como forma pragmática da manifestação de unidade pela qual Jesus
orou em João 17. Ela é vital "para que o mundo creia". Missão sem
parceria é mero proselitismo sectarista.
d)
Missão e Ação Social - O papel da igreja continua sendo o de testemunhar
para o mundo acerca do reino de amor, que resgata o perdido, ensina e corrige o
errante, ampara e levanta o caído, alenta o abatido, liberta o preso, cura o
ferido... para que seja na terra assim como é no céu. A missão não é ação
social, mas não é possível haver missão de Deus no meio dos homens sem que
essas facetas da vida sejam tocadas como manifestação do Reino de Cristo
presente aqui e agora. A mera ação social o estado ou ONGs podem fazer, mas são
incapazes de causar a transformação que somente o Espírito de Deus pode
causar. E a Igreja é o agente de Deus nessa ação.
e)
Missão e Igreja Africana - Refiro-me novamente ao Lausanne III Cape Town
2010 que enfatizou o crescimento da igreja africana e sua importância na
missiologia contemporânea. Irmãos africanos estão testemunhado do amor de Deus
em diversas partes do mundo. Ainda que a maioria não o faça como missionários
convencionalmente enviados por uma igreja, são comissionados por Deus a
representarem Seu Reino em países onde o testemunho do evangelho outrora floresceu
e hoje estagnou ou desapareceu. Muitos deles, chamados migrantes econômicos,
por onde andam levam a mensagem da fé até mesmo em países árabes. É importante notar que vivemos uma nova perspectiva missiológica bem colocada Luiz Longuini Neto em seu lovro "O Novo Rosto da Missão", Ed. Ultimato. Ele observa que já não
existem mais países enviadores e países recebedores. Todos enviam e todos
recebem. Tem sido isso uma estratégia da igreja? Creio que não. Mas é
estratégia de Deus Ele está movendo as peças no quebra-cabeça da história dos povos porque é soberano na missão. Se no
passado Ele se serviu de uma igreja social e politicamente influente e
economicamente rica e poderosa, na presente geração soberanamente decidiu usar
sua igreja dos países "sub desenvolvidos" e de países "em desenvolvimento" para testemunhar do Seu reino. Afinal,
não escolheu Ele também o fraco e o que nada é para envergonhar o forte...? (I Cor. 1:27).
f)
Missão e Treinamento - Esse tema é de vital importância. Pois
conquanto Deus, em Sua soberania, usa o fraco e o que nada é para confundir os
fortes, também conclama que utilizemos tudo a nosso dispor para melhor
desempenho do testemunho. O "fazer a obra do Senhor relaxadamente"
implica em não fazer boa mordomia dos recursos por Ele disponibilizados.
Treinamento é chave nesse processo. Muitos erros podem ser evitados com o
simples fato de não nos submetermos a um treinamento adequado. Este princípio não
se aplica apenas ao treinamento bíblico, aplica-se também, ao treinamento
eficaz em qualquer outra área vocacional. Vocação não se limita ao chamado para
a pregação da Palavra, mas também ao chamado para a medicina, para a docência, para a administração, para as artes,
etc. Na vida do crentes essas vocações ou esses "chamados" são tão santos quanto à vocação ao ministério da Palavra. "Não existe capacidade, indústria ou aptidão que não se deva reconhecer como proveniente de Deus" (João Calvino, Comentário a Mt. 25:15).
g)
Missão e batalha Espiritual - O reino tem um inimigo e precisamos estar
cientes dessa realidade todos os dias. Com isso quero dizer que a luta espiritual é uma constante. No ambito da missão é ainda mais intensa. Não há como negar sua
infiltração no ato da semeadora. Não há como semear o trigo sem que o joio
apareça no meio. Por esta razão, a vigilância em oração deve ser igualmente constante a fim de que
não sejamos enganados pelo inimigo do Reino de Deus e seus valores. Esse é seu papel do inimigo de nossas almas - enganar. Portanto, ignorar sua realidade é o mesmo que “baixar a guarda” numa luta de boxe.
h)
Missão e o Movimento Pentecostal e Carismático - Como pensadores de linha
reformada, estamos certos da saúde de nossa orientação teológica. No entanto,
precisamos ter cuidado para não cairmos no pecado da soberba ou senso de
superioridade. Cabe somente a Deus separar o joio do trigo. Não podemos
esquecer que Deus, em Sua soberania, usa a quem quer. Isto não quer dizer, porém, que o fato de estar sendo usado/a autentica ministério de quem quer que seja. E nesse sentido, embora
não os referendamos por causa de sua teologia equivocada, temos que admitir que movimentos carismáticos ou chamados pentecostais
têm sido usados pelo Senhor para manifestar o Seu reino na terra. Uma coisa é ser usado por Deus (Deus usa até pedras), outra coisa é ser aprovado por Deus.
i)
Missão e a Globalização – Vivemos num mundo globalizado, Deus é
globalizado. Deus não é limita por nada. Desde o início o propósito salvífico de Deus é O MUNDO TODO. IAWEH não é um Deus local, nacional, etc.
É Deus de todos os povos e seu reino é para todas as etnias, todas as línguas,
todos os povos. Creio que é o suficiente para ilustrar a natureza global da
missão de Deus.
Qual sua estratégia em Missões?
Minha estratégia é: "fazer-me de tudo para com
todos com o fim de alcançar alguns", sem jamais me envergonhar do
evangelho, tendo em vista que "é poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê".
Qual a sua visão sobre Missionários de curto termo
e fazedores de tenda?
Quanto à "missão de
curto termo" entendo ser uma estratégia cada vez mais importante num mundo
onde tudo é muito rápido. Ela é importante a fim de maximizar a proclamação. Em relação ao
"fazedor de tendas" sua longa história de eficácia, encabeçada pelo
apóstolo Paulo, nos diz tudo. Nos dias de hoje, num mundo dirigido pelo mercado, tal
estratégia vem se tornando ainda mais importante e até mesmo necessária para a
eficaz manifestação do Reino em certos contextos. Profissionais dos mais diversos ramos da atividade humana são bem-vindos. Hoje há uma procura cada vez maior por empresários, gente do mundo dos negócios, que possam contibuir com a geração de emprogo e o desenvolvimento humana. É a hora e a vez de empresários cristãos comprometidos com a missão proclamadora dedicarem sua vida e habilidades para manifestar o Reino de Deus por meio de sua vida e ações, em contextos onde um "missionário de carreira" não pode entrar.Que o Senhor lhe aqueça o coração e lhe aumente a visão!
Um comentário:
Olá meu amado irmão, graça e paz.
Mantenho o blog missionário Veredas Missionárias, e gostaria de publicar esta entrevista por lá, com todos os créditos. O texto estaria programado para o mês de novembro.
Que o Senhor nosso Deus continue a lhe abençoar e usar meu caro irmão.
Um abraço fraterno do Sammis
http://veredasmissionarias.blogspot.com/
sammisreachers@ig.com.br
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