Por rev. Gessé Almeida Rios
O Alto Comissariado das Nações Unidas para
Refugiados (UNRHC) em sua Convenção de 1951 no artigo 1º, inciso 2º assim define refugiado:
Existe certa confusão quanto às definições sobre
migração internacional de povos. Basicamente são três os tipos de migração. Sendo estes o refugiado propriamente dito, o migrante internacional (MI) e o Deslocado
Internamente (DI). Podemos defini-los da seguinte forma:
-
Refugiado – Com base na definição acima podemos dizer que refugiados são aqueles
que estão fora do seu país de origem por razões de segurança. A vida está em
perigo.
- Migrantes
Internacionais (MI) – Na categoria dos chamados MIs estão os que optam pela
migração, ainda que temporária, para outros países em busca melhores condições
de vida ou para aprimorarem carreira profissional. De acordo com a ONU são 175
milhões (http://www.unhcr.org/cgi-bin/texis/vtx/news/opendoc.htm?tbl=NEWS&id=44463fed4).
- Deslocado
Internamente (DI) – Como o próprio termo sugere, são definidos como DIs aquelas
que, em condições de sobrevivência desfavoráveis seja em virtude de conflitos
armados, desastres naturais, etc. se deslocam dentro do próprio país. Conforme
relatório da ONU, hoje existe mais de 37,4 milhões de DIs. http://www.guardian.co.uk/environment/2008/jun/17/climatechange.food#)
Neste artigo focalizaremos nossa atenção na mais na questão
do refugiado no mundo hoje ou, como prefere o Movimento Lausanne, nos “Membros da Diáspora”. De início é preciso esclarecer que o tema não é novo.
Trata-se de fenômeno tão antigo quanto à própria história da humanidade. Todos
os países do mundo, em algum momento de sua história e em grau maior ou menor, geraram
ou abrigaram refugiados. Portanto, não existe um povo que ainda não tenha experimentado o lidar com a questão. Tal fenômeno não escolhe raça, cor, religião, idade,
gênero ou status social. E os números são cada vez mais alarmantes.
De acordo com o Jornal do Brasil online de 24
de março de 2009, em 2008 bateu-se o recorde de 67 milhões de pessoas refugiadas
no mundo. (http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/03/24/e240326606.asp).
Sendo os países da África, como República Democrática do Congo (DRC), Burundi, Ruanda, Somália, Sudão, e países do Oriente Médio os maiores responsáveis por estes números alarmantes.
Entre as situações mais recentes destacamos o que vem ocorrendo na Siria, onde milhares de pessoas curzam as fronteiras todos os dias em busca de segurança e abrigo. O Zimbábue de onde milhares continuam fugindo do regime ditatorial do presidente
Robert Mugabe tem afetando sensivelmente os países visinhos, que por si só já sofrem com a
falta de emprego para os próprios nacionais. Outro caso que chama atenção é o
que vem ocorrendo no Sudão, recentemente dividido, por causa dos conflitos entre o norte e o sul, e mais precisamente os conflitos na região de Dar Fur que
contribui com os cerca de 2,5 milhões de refugiados para campos como o de Djabal no
Chade. Apenas para atender aquela situação a ONU dispõe de 3.3 mil
soldados da EU para fazer a guarda e administrar 850 escritórios, a fim de
manter a ordem. O que seguramente não são suficientes. Apesar da proteção oferecida existem acusações de que
refugiados ali continuam sendo atormentados por guerrilheiros militantes de
grupos rebeldes como o Janjaweed. Ataques a mulheres e crianças são ainda mais
freqüentes. Recrutamento de menores para serem treinados como soldados infantis é bastante comum. O filme “Diamante de Sangue” estrelado por Leonardo Di Caprio
é uma denúncia a esse tipo de prática. O Presidente do país, Omar Al-Bashir,
está sendo acusado de genocídio e tem um mandato de prisão decretado por uma
corte internacional. Mesmo com a recente divisão do país entre Sudão do Sul e
Sudão do Norte a situação ainda é dramática.
Na República Democrática do Congo a situação
não é diferente. Sobretudo na região Norte do Kivu. Vive-se uma verdadeira calamidade!
Mulheres são estupradas, maridos mortos na presença de esposas e filhos,
meninos são tomados para serem treinadas como guerrilheiros... As atrocidades
são tantas que nem podemos detalhar nesse espaço a fim de não ferir a sensibilidade
do leitor.
Diversos são os fatores que motivam a migração
forçada. Entre os principais estão a fome, crises econômicas,
perseguição religiosa ou política, conflitos étnicos, guerras (civis e
militares), e o mais recente vilão, que são as questões relacionadas às mudanças
climáticas. Segundo o programa Fantástico de 15/03/09 da Rede Globo de
Televisão em menos de um século o fenômeno do “aquecimento global” será
responsável por aproximadamente dois bilhões de refugiados no planeta. Apesar
de parecer um número alarmante, tal prognóstico foi confirmado pelo próprio Alto
Comissário da ONU para os Refugiados, na pessoa de seu secretário Antônio
Guterres, o qual a classifica como “situação sem precedentes na história”.
Como resultado milhões de pessoas fogem das
condições hostis em que se encontram e se espalha pelo mundo em busca de
sobrevivência. Nessa busca mulheres e crianças são as maiores vítimas por serem mais vulneráveis. Tonam-se vítimas de toda sorte de abuso físico e
emocional. As condições a que
são submetidos são, na maioria dos casos, de absoluta precariedade. Geralmente vão
parar em acampamentos superlotados montados, geridos e supervisionados pela ONU, onde as condições
de vida são limitadas e suas liberdades tolhidas. Isso em função da própria
proteção dos acampados. Em outras situações, como no caso do Brasil, onde a presença
de refugiados é mais recente, África do Sul e países desenvolvidos, os
refugiados são propriamente documentados e inseridos na comunidade local. Assim
desfrutam de certa autonomia, estudam, trabalham e interagem livremente na
comunidade.
Na maioria das vezes esses refugiados entram
como imigrantes ilegais utilizando-se dos mais variados meios de transporte. No
caso dos refugiados africanos com os quais estamos acostumados a lidar sabemos de casos em que fogem das regiões de conflitos muitas vezes através de longas caminhadas noturnas
no meio do mato para dificultar serem apanhados por guerrilheiros. Durante
meses enfrentam feras e animais peçonhentos, suportam o frio da noite e o calor
do dia, passam fome e são vítimas de suborno para terem passagem por tribos
inimigas. Tudo isso em busca de uma sobrevivência mais digna. Em alguns casos se
utilizam de caronas de caminhoneiros, escondem-se no meio de cargas e até mesmo
em porões de navios.
Pagamento de propina é algo a que estão
acostumados ao ponto de acharem que tudo na vida se resolve oferecendo suborno.
Mesmo nas grandes cidades da África do Sul, tem-se notícia de que são
extorquidos por maus policiais. São explorados dia e noite por aqueles que
supostamente deveriam zelar pelo seu bem estar. Em função da situação de
extrema necessidade acabam se submetendo à exploração como mão de obra fácil e
barata. São igualmente vítimas das redes de exploração do tráfico humano,
sobretudo pela indústria ilegal do sexo. E, para completar o quadro de abandono
e desprezo, ainda são comumente tratados com toda sorte de expressões
discriminatórias. Na África do Sul são comumente chamados de “amakwerekwere”.
Uma maneira de se referir a eles como bárbaros, macacos, ou aquele que emite
sons ininteligíveis. Crianças refugiadas crescem nesses ambientes hostis e,
como conseqüência, alimentam ódio e desconfiança de tudo e de todos.
O outro lado da moeda é que também existem
aqueles que se passam por refugiados. Ou seja, aqueles que se aproveitam da
miséria alheia e infiltram em outras terras com motivos escusos. Migram apenas
para fins de espionagem ou puramente com o objetivo de expansão religiosa,
prática comum no mundo islâmico. Desconfia-se que determinados grupos radicais
geram instabilidade para forçarem a migração da fé por meio de seus refugiados
para outras nações menos islamizadas. Além disso, há ainda os foragidos da
justiça em seus países que fogem para escaparem de crimes cometidos. Acompanhamos
recentemente no noticiário brasileiro o dilema envolvendo o Supremo Tribunal
Federal (STF) e o ex-integrante do grupo “Proletários Armados pelo Comunismo”
(PAC), Cesare Battisti, foragido da justiça italiana. Portanto, nem todos que
se apresentam nos departamentos de imigração estão buscando refúgio por uma razão justificável. Cabe aos referidos departamentos e Polícia Federal investigar cada
caso e assim atender ou não tais pedidos.
E quanto a nós igreja em países receptores de
imigrantes refugiados ou membros da diáspora? Como estamos vendo esse movimento
de pessoas em torno do globo? São eles aos nossos olhos intrusos competindo no
mercado de trabalho tirando as oportunidades dos nacionais? Ou os vemos como
pessoas enviadas por Deus para receber o testemunho que a igreja tem para dar da verdadeira Luz? De que maneira estamos nos preparando para recebê-los e
ministrar em suas vidas?
Uma coisa não se pode negar, a Bíblia dá
atenção especial ao tema “refugiado” ou “estrangeiro”. Começando pelo fato de
que muitos personagens bíblicos importantes enfrentaram o refúgio em terra
estranha. Por exemplo: Caim (Gen. 4:16), Abrão (Gen. 12:10), José (Gen. 39:1),
o povo judeu (Ex. 1:1-14). A experiência de ser estrangeiro foi vivida bem de
perto por grandes servos de Deus. Moisés nasceu no exílio. O povo judeu no
período profético viveu no exílio. Até mesmo Jesus experimentou viver como um
refugiado (Mt. 2:13-15).
O propósito desse texto é nos encorajar a
refletir sobre a necessidade de exercermos ministério entre refugiados. E há pelo menos três razões por que devemos fazê-lo:
1. Para os pragmáticos da missão, a
principal razão para o trabalho missionário entre refugiados é que se trata de um
grupo estratégico. E é verdade! Muitos deles são pessoas bem esclarecidas e de
boa formação. Portanto, se um dia voltarem para os seus conterrâneos como pessoas
nascidas de novo certamente o impacto será grande no meio do seu povo. A
história é repleta de exemplos que, por falta de espaço, não citaremos aqui. Se
pensarmos apenas do ponto de vista do proselitismo podemos dizer que esta motivação
já basta.
2. Podemos ir mais além e afirmar que a
ação missionária entre refugiados se justifica por se tratar de uma oportunidade
para expressarmos de maneira concreta o grande amor de Deus que abriga o
desabrigado, ampara o desamparado, cura o ferido, salva o perdido e traz plena libertação
ao cativo.
3.
Mas,
acima de tudo, entendo que uma investida missionária entre pessoas da diáspora
se faz necessário por se tratar de um mandamento bíblico. Israel foi chamado
por Deus como nação para que Ele fosse por ela apresentado aos demais povos. Foi
chamado para refletir a Luz do Senhor para as outras nações? Nesse contexto,
podemos encontrar diversas referências bíblicas nas quais, Deus expressa uma preocupação
especial para com o estrangeiro - “o estrangeiro que vive no meio de ti...” Em Gen.
23:4 vemos uma prática de cortesia entre os povos evoluindo e tomando forma de
lei em Lev. 19:10 (cf. Rute 2:2-23) – leis de proteção. E a lei das leis - “amar
como a si mesmo” Lev. 19:34; 10:18,19; Dt. 10:17-19. Este mandamento divino,
portanto, é a reafirmação de uma prática comum (uma espécie de lei que Deus
havia colocado nos corações) de acordo com Lev. 23:22. Israel teria que tratar
o estrangeiro que habitasse no meio dele não com uma lei diferenciada, mas com
sua própria lei (Lev. 24:22; Lev. 15:16). Havia lei de proteção (Lev. 24:17) onde
se requeria assistência integral (I Rs. 8:41). Em Jó vemos de maneira clara a
prática do acolhimento ao estrangeiro como ato obediência a Deus (Jó 31:32).
Concluindo, não temos dúvidas de que estamos diante
de uma realidade que afeta a todos nós. Cada vez mais teremos pessoas vivendo
como refugiados principalmente nas grandes cidades. A pergunta que não deve
calar é: de que maneira enxergamos essas pessoas? As vemos como intrusos que
tiram nossas oportunidades e as dos nossos filhos, ou os como enviados por Deus
para compartilhemos da graça salvadora que dEle temos recebido?
Muitos refugiados contribuíram para o mundo nos
campos da religião, ciência, tecnologia, etc. Se os Estados Unidos, por
exemplo, tivessem descriminado ou até mesmo rejeitado o pedido de refugio do
casal Michael e Eugenia Brin, judeus de origem russa, talvez hoje não tivéssemos
uma das maiores e mais úteis ferramentas de internet, a qual facilita a vida de
muitos. Sergey Mihailovich Brin chegou como
refugiado nos EUA aos 5 anos de idade para ser o co-fundador da Google.
Queremos ver a igreja abraçando o estrangeiro
com o firme propósito de compartilhar sua fé em Jesus. Que o Senhor nos aguce a
razão para refletirmos, abra os nossos olhos para enxergarmos e nos aqueça o coração
para amarmos. Certamente, como resultado nações serão alcançadas para a glória
do Nome que está acima de todos os nomes.
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